sexta-feira, 31 de julho de 2009

Semana atribulada

Êta semaninha do capeta
Amigos que estão ao lado e não tem atenção
Morena cheirosa, que não lhe dei a mão
Dor de cabeça, cansaço, sem treta

Não dá para viver assim
Trabalho mais do que tudo
Parece que não tem fim

Palavras idiotas no fim do expediente
Não há nada mais agora
Que mude o dia da gente

A vida é assim mesmo
Qual é a razão de sermos desse jeito?
Por que não mudamos?
E passamos a viver um pouco ao acaso

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Ética?


Muitos estudaram a tal da ética na faculdade. Mas a escola da vida dos congressistas brasileiros não ensina nada disso. Pelo contrário. Ensina como não proceder.

A charge é de autoria de Junião e foi feita para o Diário do Povo.

domingo, 19 de julho de 2009

A gripe e o testamento


Atchim! Não, meu caro, eu não estou com gripe suína. Que saco, parece que não se pode mais espirrar.

A paranoia que se faz em torno de uma doença como essa é impressionante. A mídia fica em cima e meia dúzia de “profissionais de saúde” irresponsáveis a alimentam. Não há o que temer.
Se tiver mais de um dos sintomas da doença (febre alta, dor de cabeça, irritação nos olhos e nas narinas, náusea, vômito, diarreia, dor muscular e nas articulações), é só procurar um posto de saúde ou seu médico particular.

O próprio José Gomes Temporão, ministro da Saúde, disse esses dias em uma entrevista na Record que mais de 77 mil pessoas morrem por ano no Brasil com sintomas da influenza normal.

Ou seja, a gripe que as pessoas tratam com o chazinho da vovó tem um potencial de letalidade (será que posso usar esse termo?) maior que o da influenza suína, ou influenza A H1 N1.

Recentemente, a coordenadora de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, Clélia Aranda, escreveu um artigo afirmando que não há motivo para pânico.

Outro dia, ouvi dizer que um infectologista lá da minha terra (Mato Grosso do SUL) afirmou em uma palestra que o vírus foi “criado” pela indústria de medicamento para vender mais remédios e, futuramente, a vacina salvadora também.

Não vou citar o nome do médico porque não ouvi isso diretamente dele. Mas, segundo me contaram, a tese dele é a de que a crise financeira bateu forte nessas indústrias e, por isso, elas precisavam ter algum retorno financeiro imediato.

Não duvido de nada! O ser humano é desprezível, em alguns momentos.

Para que fique bem claro. Quando eu espirrar, muito provavelmente é minha rinite que atacou nessa cidade louca e com um ar tão puro como o de uma floresta inexplorada.

Só para constar: Até sexta-feira, quando a Organização Mundial da Saúde ainda contava os infectados, 120 mil pessoas já tinham sido contaminadas e 591 haviam morrido.

Para não irmos muito longe, no Brasil eram 1.175 infectados, 11 mortes; na Argentina, 3.056 contaminados, 137 mortes; e no Paraguai, onde fica a Capital Del Mondo (Assunção), foram 125 contagiados e 3 mortes. Será que precisa de tanto alarde?

Ahhh, se eventualmente minha rinite ficar turbinada e eu não resistir, aviso que os meus bens materiais (meia dúzia de livros, umas garrafas de pinga e um celular velho) devem ser leiloados.

A grana que for arrecadada no leilão (que provavelmente serão bilhões de guaranis) deve ser dividida em duas partes: metade será para construir uma casinha nova para o meu cachorro e a outra metade doada para a Associação da Nossa Senhora do Triciclo. E tenho dito!

*Crédito da imagem: Tirinhas do Zé

sábado, 18 de julho de 2009

O próprio umbigo

Brasil cede em Itaipu para beneficiar Lugo. A manchete deste sábado (18/07/09) d’O Estado de S. Paulo mostra como a imprensa e a população de maneira geral continuam com uma imagem ultranacionalista e protecionista do nosso país em relação aos demais países periféricos.

Não dá para esperar que relações entre países sejam uma via de mão única. O Brasil não deve fazer com os países subdesenvolvidos o que as grandes potências sempre fizeram conosco. Em relações internacionais, não é admissível esperar a submissão por uma das partes.

Há quem diga que a parceria do Brasil com os guaranis para a instalação da hidrelétrica de Itaipu seja resquício da Guerra do Paraguai e por isso mesmo não deveria haver nenhuma revisão do atual contrato que prejudica o lado mais fraco. Pelo contrário.

Longe de mim ser defensor do atual governo brasileiro. Só penso que ceder algumas vezes faz parte dos relacionamentos, principalmente entre Estados soberanos.

O que o Brasil está fazendo é o que ele espera que seja feito consigo mesmo. Se tivéssemos o mesmo retorno dos Estados Unidos ou da Inglaterra em outros tempos, talvez não estivéssemos tão atrasados.

Não acredito que Lula queira beneficiar Fernando Lugo. Há momentos em que é necessário despersonificar algumas atitudes de governos.

A visão de que um acordo entre os dois presidentes seria uma forma de melhorar a avaliação de Lugo (que foi bispo da Igreja Católica e tem mais filhos que um coelho) é demasiadamente simplista.

Há pouco mais de um ano, conheci em um albergue um senhor francês (Jean) que passeava em São Paulo. Aposentado, ele trabalhou durante quase toda a vida com educação de jovens infratores na França.

Além de conhecer a América do Sul, a viagem dele tinha como objetivo fazer serviço social e voluntário em alguma comunidade pobre do continente.

Antes de vir ao Brasil, Jean esteve na Argentina. Lá, dizia ele, o povo não é tão pobre. Aqui, só é desorganizado e suja muito as ruas. Depois de ficar pouco mais de duas semanas percorrendo diversos pontos de São Paulo e conversar com meio mundo, decidiu ir para a Bolívia.

“Pelo que pesquisei, lá sim tem gente miserável”, me falou Jean. E seguiu seu rumo. Qual foi o resultado da experiência dele? Não sei. Infelizmente não falei mais com ele. O camarada é meio avesso à internet e disse que ficaria com meus telefones para um eventual contato.

De qualquer forma, contei essa história para ressaltar que algumas vezes, pelo menos, é preciso parar de olhar para o próprio umbigo e pensar um pouco nos menos favorecidos.

Admito: é fácil falar, tudo isso. Difícil é concretizar.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Tudo pela audiência

Por dinheiro se faz tudo. Ao menos é essa a aparente filosofia das redes de TV brasileira. Ao invés de valorizar o maior torneio continental de futebol, a Rede Globo tem pensado apenas na audiência para transmitir jogos do campeonato brasileiro.

O ápice do absurdo ocorreu no ano passado, quando, em São Paulo, preferiu passar uma partida do Corinthians na segunda divisão a transmitir a final da Taça Libertadores da América entre o Fluminense e a LDU.

Neste ano, a cena se repete. Como não nenhum time paulista na final da Libertadores (entre Cruzeiro e Estudiantes), a TV dos Marinho vai transmitir Flamengo e Palmeiras. Na semana passada, durante a primeira partida da final, o televisionável foi Corinthians e Fluminense.

É o máximo da desvalorização dos grandes torneios esportivos. O ex-jogador e magistral colunista Tostão, já fez o alerta na semana passada em sua coluna na Folha de S. Paulo: "Cruzeiro e Estudiantes fazem hoje o primeiro jogo decisivo. A Taça Libertadores da América é o título mais importante e mais desejado pelos clubes brasileiros e argentinos.

Mesmo assim, a CBF, para atender aos interesses da Globo, adiou o jogo entre Corinthians e Fluminense para o mesmo dia e horário da partida da Libertadores. Para a Globo, o jogo pelo Brasileiro dá mais audiência no Rio e em São Paulo".

Além disso, há outros problemas em relação ao Brasileiro, conforme noticiou ontem a coluna Painel FC, também da Folha.

"A Globo programa transmitir em TV aberta 12 jogos do Corinthians de um total de 19 do primeiro turno do Brasileiro. Algumas partidas, que serão em São Paulo, devem passar só fora da cidade. Com isso, os corintianos terão três jogos a mais na tela global em relação a São Paulo e a Fluminense, os segundos. É um reflexo da política da emissora para o Corinthians da era Ronaldo. Em toda a temporada, a emissora usou até agora 70% das partidas do time. Executivos da Globo não foram encontrados para comentar a preferência."

Tudo isso porque, segundo Tostão, "vivemos a época do espetáculo e da audiência. Poucos querem saber de análises e de reflexões. Existe uma epidemia de idiotice. Os fatos se tornam importantes de acordo com a audiência. As pessoas passam a ser analisadas por seu comportamento pessoal, não pelo seu trabalho. Alguns jornalistas não querem apenas dar e analisar a notícia. Querem ser a notícia. É o show da audiência".

Mais uma vez, estamos reféns dessa trupe que acha que sabe tudo de futebol, mas antes de transmitir uma partida olha para o próprio bolso.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Feriado em Bananópolis


Ruas estreitas onde só há espaço para passar um veículo por vez. O comércio está em pleno funcionamento. Padarias com filas para comprar pães ou doces. Botecos cheio de marmanjos bebendo cerveja, batendo papo, jogando dominó ou se divertindo nas máquinas caça-níqueis e mesas de sinuca.
Nem parece feriado de 9 de julho. Para onde se olha, há um grupo de pessoas rindo à toa ou só observando o movimento da rua.
Na noite de ontem, uma garota foi baleada quando chegava em sua casa, em frente à uma igreja. A família ainda está abalada com o ferimento feito na menina, de oito anos.


"Dona Zefa, rezei a noite inteira para sua neta. Ela ‘tá’ bem?", pergunta uma senhora para a avó de Tatiana, a garota baleada.

"Graças a Deus. ‘Tá’ lá no hospital Agora não corre mais riscos", afirma a senhora de 46 anos de idade, mas com corpinho 64. Quase todos que passam pela casa da garota ferida perguntam como ela está.

Em Bananópolis, uma das maiores favelas da louca cidade sul-americana, é comum ver motoqueiros trafegando sem capacete e rampando quebra-molas (ou cacorutos, como diz uma mineira que conheço).

O local tem a pecha como de ser um dos mais violentos da cidade. A PM afirma que lá é muito comum a incidência de traficantes de drogas. Em um tom preconceituoso, um oficial da corporação diz que a maior parte das 200 mil pessoas que vivem lá estão diretamente ligadas ao crime organizado.

De fato, há várias infrações à legislação. Caça-níqueis, jogo do bicho, caminhões vendendo gás de cozinha sem autorização e gatos de energia são vistos facilmente. Mas não dá para generalizar, como fez o policial.

O que o oficial esqueceu de dizer é que, muitos dos crimes que ocorrem na região (e no país como um todo) acontecem com a conivência da própria polícia.

"É difícil a gente ver a polícia por aqui. Eles não entram muito porque são parceiros do pessoal do jogo do bicho e da ‘farinha’", fala um morador. Para um bom entendedor, meia palavra basta.

Como raramente vão até o local, os policiais não conhecem muito as travessas e vielas de Bananópolis. Talvez por isso, um deles tenha feito o disparo que acertou a pequena Tatiana no tórax.


Crédito da Imagem: Quadro de Bryan Orquiza, obtido no site Hielo Azul

*PS:Todos os nomes, inclusive o da favela, são fictícios

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Peão paulistano

Paulo Matorazza era um paulistano que tinha acabado de chegar ao Pantanal. Depois de trabalhar cinco anos na “selva de pedras” e conhecer vários países da Europa, decidiu ir para o campo. Não queria ter a vida estressante de seus pais e, depois que assistiu à novela Pantanal, na antiga TV Manchete, sonhava viver no campo.

Quando chegou na fazenda da família Orsi Corrêa da Costa, os peões desconfiaram do cara. Acharam que ele era um mauricinho que nada sabia de fazendas. Certamente era. Mas também era uma pessoa determinada e pronta a aprender.

Seu Orsi, o patriarca da família, no alto de seus 85 anos, perguntou ao jovem paulistano se ele tinha mesmo a certeza de que queria ser peão. Paulo, que ainda não tinha chegado à terceira década de vida, disse que sim. “Estou pronto para o que der e vier. Para mim, não há nada melhor do que ouvir o canto dos pássaros todos os dias, andar a cavalo e ver o voo do tuiuiú à beira do Rio Paraguai”.

O patriarca concordou com o desejo do rapaz, mas como precisava de um funcionário e não de um hóspede, disse que o rapaz deveria ficar na fazenda, acompanhando o trabalho dos peões e, constantemente, passaria por testes. Se fosse bem avaliado seria contratado.

Por mais que gostasse do campo, Paulo morria de saudades da cidade. Para amenizar suas dificuldades, sua namorada foi morar com ele. Como ela era extremamente competente foi contratada para trabalhar na casa dos Orsi Corrêa da Costa. Como já tinha tido várias experiências profissionais conseguiu trabalhar como uma espécie de assessora especial do hotel da família no Pantanal.

Enquanto isso, Paulo continuava sendo testado. Quebrou pedras, capinou, semeou o campo, carregou fardos, alimentou os animais, tocou boiada, fez uma travessia pantaneira e teve de negociar com compradores de gado em nome de seu patrão. Suou um monte. Nesse tempo todo teve apoio da namorada e de vários peões da fazenda. Porém, sempre havia aqueles que lhe olhavam torto, continuavam achando que ele era um mauricinho e que jamais seria contratado para o cargo, afinal, ele era um cara da cidade.

Depois de quase dois anos, Seu Orsi decidiu contratá-lo. Deu a ele uma função difícil, mas que acreditava que o rapaz dava conta de fazer. Quando sua namorada ficou sabendo foi uma festa só. Já os colegas se dividiram. Alguns comemoraram, outros foram indiferentes e uns, como não poderia deixar de ser, secaram.

Houve quem dissesse que aquilo tudo era pura sorte, afinal, como um paulistano seria contratado por um pantaneiro. Era uma coisa tão destoante que parecia que o presidente Lula estava colocando a senadora Kátia Abreu no ministério do Meio Ambiente e a senadora Marina Silva no ministério da Agricultura.

Um dos que chiou era um cavaleiro da fazenda que há tempos trabalhava com os Orsi Corrêa da Costa e, assim como Paulo, não era pantaneiro. “A diferença é uns esquecem suas origens. Outros não”, pensou o novo peão.