quarta-feira, 1 de julho de 2009

Peão paulistano

Paulo Matorazza era um paulistano que tinha acabado de chegar ao Pantanal. Depois de trabalhar cinco anos na “selva de pedras” e conhecer vários países da Europa, decidiu ir para o campo. Não queria ter a vida estressante de seus pais e, depois que assistiu à novela Pantanal, na antiga TV Manchete, sonhava viver no campo.

Quando chegou na fazenda da família Orsi Corrêa da Costa, os peões desconfiaram do cara. Acharam que ele era um mauricinho que nada sabia de fazendas. Certamente era. Mas também era uma pessoa determinada e pronta a aprender.

Seu Orsi, o patriarca da família, no alto de seus 85 anos, perguntou ao jovem paulistano se ele tinha mesmo a certeza de que queria ser peão. Paulo, que ainda não tinha chegado à terceira década de vida, disse que sim. “Estou pronto para o que der e vier. Para mim, não há nada melhor do que ouvir o canto dos pássaros todos os dias, andar a cavalo e ver o voo do tuiuiú à beira do Rio Paraguai”.

O patriarca concordou com o desejo do rapaz, mas como precisava de um funcionário e não de um hóspede, disse que o rapaz deveria ficar na fazenda, acompanhando o trabalho dos peões e, constantemente, passaria por testes. Se fosse bem avaliado seria contratado.

Por mais que gostasse do campo, Paulo morria de saudades da cidade. Para amenizar suas dificuldades, sua namorada foi morar com ele. Como ela era extremamente competente foi contratada para trabalhar na casa dos Orsi Corrêa da Costa. Como já tinha tido várias experiências profissionais conseguiu trabalhar como uma espécie de assessora especial do hotel da família no Pantanal.

Enquanto isso, Paulo continuava sendo testado. Quebrou pedras, capinou, semeou o campo, carregou fardos, alimentou os animais, tocou boiada, fez uma travessia pantaneira e teve de negociar com compradores de gado em nome de seu patrão. Suou um monte. Nesse tempo todo teve apoio da namorada e de vários peões da fazenda. Porém, sempre havia aqueles que lhe olhavam torto, continuavam achando que ele era um mauricinho e que jamais seria contratado para o cargo, afinal, ele era um cara da cidade.

Depois de quase dois anos, Seu Orsi decidiu contratá-lo. Deu a ele uma função difícil, mas que acreditava que o rapaz dava conta de fazer. Quando sua namorada ficou sabendo foi uma festa só. Já os colegas se dividiram. Alguns comemoraram, outros foram indiferentes e uns, como não poderia deixar de ser, secaram.

Houve quem dissesse que aquilo tudo era pura sorte, afinal, como um paulistano seria contratado por um pantaneiro. Era uma coisa tão destoante que parecia que o presidente Lula estava colocando a senadora Kátia Abreu no ministério do Meio Ambiente e a senadora Marina Silva no ministério da Agricultura.

Um dos que chiou era um cavaleiro da fazenda que há tempos trabalhava com os Orsi Corrêa da Costa e, assim como Paulo, não era pantaneiro. “A diferença é uns esquecem suas origens. Outros não”, pensou o novo peão.

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