segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Antigos rancores

Se existe um ditado que nunca falha é aquele que diz algo parecido com isso: "Quem bate esquece. Quem apanha não."

O rancor dos paraguaios com os hermanos brasileiros e argentinos é antigo. Surgiu na Guerra do Paraguai e permanece até hoje. Não tiro a razão deles. Acredito que eu já tenha escrito algo a respeito disso neste nobre espaço que quase niguém lê. Nesse fim de semana dois exemplos ilustram bem essa tese.

Editorial do jornal ABC Color, um dos maiores da nação guarani, atacou ferozmente o Brasil e a visita do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.


Lembrou da colonização do Paraguai e citou ainda que a intenção do Brasil é "anexar" o vizinho ao seu domínio. A íntegra do artigo está aqui, e foi traduzida pelo interessante blog Sopa Brasiguaia.

O outro exemplo ao qual eu me referia é o do ataque contra o técnico Diego Maradona e os "maradonetes", ops, e a seleção da Argentina. Em tom pejorativo, o jornal Cronica, chamou os argentinos de "curepas" (expressão que significa couro de porco).

O motivo de tanto rancor é o jogo que as seleções dos dois países farão na próxima quarta-feira (09/09/09, nossa quanto 9). A partida é válida pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010.

Como se não bastasse o belo apelido dado aos "maradonetes", o periódico paraguaio critica o próprio treinador, fazendo ironias com o uso de drogas. "Se pensava em ganhar, Maradona, não aspire", diz trecho do texto que pode ser visto no Terra.

Por mais que o tempo passe, há rivalidades e rancores que dificilmente são apagados para quem levou a pior na guerra.

sábado, 5 de setembro de 2009

Novela da vida real


- Ah lá, agora chegou!
Alarme falso.
- Agora, é!
Segundo alarme falso.
- Agora não tenho dúvida, de onde vem tanta gente. Só pode ser!

Finalmente, era. Depois de quase duas horas chegou ao cemitério o corpo da adolescente assassinada na favela de Bananópolis após uma troca de tiros entre guardas municipais e supostos ladrões de carro.

A afobação nas horas que antecediam o início da cerimônia de sepultamento era do guardador de carros Zé. Aos 75 anos, aparado por uma bengala, ele complementa sua aposentadoria cuidando de veículos estacionados no cemitério da Vila Alpina.

Nos nove anos que trabalha no local, Zé nunca viu tanto repórter. As maiores emissoras de rádio e TV, os maiores jornais e os maiores urubus do país estavam lá.

Todos esperavam uma lágrima cair, alguém desmaiar ou, simplesmente, um cidadão gritar por Justiça.

Tudo isso rolou. Mas o que mais chamou a atenção foi um experiente cinegrafista da Rede Bobo. A família da garota pediu que a imprensa respeitasse o momento do sepultamento e que todos se afastassem da sepultura, onde gostariam de fazer uma oração.

O coveiro ainda estava abrindo a cova, familiares e amigos carregavam o caixão para a sepultura e o experiente cinegrafista gritou:

- Amigo, para de cavar um pouco aí.

Como ele não foi atendido, repetiu em tom mais alto.

- Faz favor de parar de cavar.

Essa imagem já estava perdida. Afinal, não seria plasticamente elegante exibir uma cena como essa em horário nobre. Não contente com sua atuação, o cinegrafista buscava uma nova cena que lhe agradasse.

Após a oração, o caixão começou a descer a vala. Os familiares fizeram um círculo em torno da sepultura e aí ouviu-se novamente a voz do cinegrafista:

- Ôooo pessoal vamos abrir um espaço aí. Chega para lá amigo. Não consigo filmar o caixão assim.

Atuando como se tudo aquilo fosse um filme, o cinegrafista ouviu chiadeira apenas de um colega, que tentava lhe lembrar que aquilo era “vida real” e não a novela das oito.

Aparentando estar com a consciência límpida, o cameraman ignorou os comentários, apertou o rec quando a sogra da jovem desmaiou, seguiu com o botão apertado quando amigos dela que xingaram a imprensa, mostrou as pessoas deixando cemitério, desligou a filmadora, acendeu um cigarro, entrou em seu carro e foi embora. Como se nada tivesse acontecido.

Ah, ao final daqueles momentos tensos, o seu Zé, aquele guardador de carros, disparou:

- Foi emocionante, né?

*Cédito da Foto: Paulo Madeira / Olhares.com